Uma noite arrepiante em OxenFree

Neste feriado de Páscoa, tirei um dia para finalmente experimentar este game indie que me despertou interesse desde seu lançamento, OxenFree (Night School Studio, 2016). Nele, você controla a jovem de cabelos azuis Alex, no decorrer de uma noite que deveria ser só para beber e curtir com os amigos, mas acaba se transformando em uma trama sobrenatural cheia de mistérios do passado, viagens no tempo, espíritos e possessão.

Visualmente, OxenFree é lindíssimo (mas sem esconder o baixo orçamento) e, estruturalmente, os cenários lembram o estilo 2.5D dos adventures da década retrasada, como o clássico Grim Fandango (LucasArts, 1998), que já resenhei aqui. A novidade está nos efeitos visuais de estática – tipo “chuvisco” de TV – que ficam rolando bem de levinho o tempo todo na tela e dão um certo charme retro, e ganham destaque quando o vilão interfere no jogo, desfocando e distorcendo totalmente a imagem, e participando ativamente da narrativa. São efeitos incríveis de assistir (e de vez em quando até garantem uns sustos)!

A história é, de longe, o ponto forte de OxenFree, muito bem escrita, e se desenvolve no ritmo certo, cativando e prendendo sua atenção sem apressar nenhum acontecimento ou ficar entediante, com o passar das cerca de quatro horas de gameplay. Duas narrativas se desenrolam em paralelo: uma é a da própria protagonista, que deve lidar com a entrada de um meio-irmão em sua vida, ao mesmo tempo que tenta estabelecer uma relação saudável com a ex-namorada de seu falecido irmão, e superar as memórias que assombram a perda dele; a outra é a história da ilha, assombrada pelo fantasma de um antigo submarino naufragado, invocado inadvertidamente pelos próprios jovens, e que move a aventura.

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Embora a história de assombração seja a principal em OxenFree, me senti muito mais atraído pelos dilemas da própria Alex e seus amigos, um grupo diverso de figuras com personalidades diferentes – do nerd stoner à patricinha –, pois são estes dilemas que aproveitam o sistema de bifurcação dos diálogos do jogo em sua totalidade, permitindo moldar (até certo ponto) os acontecimentos de acordo com as suas escolhas e, de certa forma, você acaba transformando a protagonista em um reflexo de como você mesmo enxerga os outros personagens. Descobrir as diferentes consequências de minhas escolhas é o que me motiva a jogar OxenFree novamente – este é o mesmo motivo que me fez jogar Life is Strange (Dontnod Entertainment, 2015), que também resenhei aqui, outras duas vezes –  já que os eventos sobrenaturais sempre acontecem da mesma maneira, independente do que os personagens conversam entre si, ou seja, sem se importar como você, jogador, decide desenvolver os diálogos e as relações entre os jovens do grupo.

Um dos destaques na história de Alex é, na minha opinião, os flashbacks em que ela reencontra seu falecido irmão Michael, pois explicam não somente o backstory da protagonista, como muito do comportamento dos outros jovens do grupo e especialmente porque Clarissa – a ex-namorada – é tão insensível com a garota.

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O ponto fraco, no entanto, é que, infelizmente, as atuações não ficam à altura do roteiro de OxenFree (salvo exceções). Talvez a developer não tenha dirigido os atores da maneira correta, ou talvez eles não conhecessem a história a fundo, ou talvez até fossem amadores, não sei… só sei que, na maior parte dos casos, a atuação não transmite a emoção dos personagens com a intensidade que eu gostaria. Alex e seus amigos deveriam estar apavorados com os acontecimentos bizarros na ilha, com a aparição dos fantasmas, com a possessão de Clarissa e dos outros, com as visões de morte e etc., mas a atuação não passa isso. É como se os jovens estivessem tranquilos com tudo que está acontecendo, quando deveriam estar morrendo de medo, com diálogos que transmitam o sentimento.

Mesmo não me satisfazendo por completo, OxenFree é um excelente jogo e foi recebido com ótimas críticas; as possibilidades de diálogo, assim como diferentes finais, convidam a retornar ao jogo e, embora não explore todo seu potencial, é um game que merece ser jogado.

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